top of page
Buscar

Farinha com Brilhantina (CRÔNICAS DO MEU PAI)


O pequeno "Derme", na cadeira, ao lado de seus irmãos

Esse seria um dia especial. Um dia no ano de 1946 – dos bons e saudosos tempos que deixaram suas lembranças cravadas na memória.

Já é noite, e numa casa rudimentar e simples na localidade conhecida como Rincão Torcido, interior de Clevelândia, a velha senhora está cuidando dos preparativos para a viajem. O candeeiro está aceso na cozinha e com sua luz fraca e amarelada projeta na parede ao lado do antigo fogão à lenha, a sombra da dona Ambrosina, terminando de fritar alguns pedaços de frango que depois serão postos em uma lata com muita farinha e servirão de alimento para ela e seu neto durante o dia em que estarão fora de casa.

Enquanto isso, no quartinho ao lado da cozinha, o pequeno Derme¹ - como era conhecido, já está deitado querendo dormir o mais rápido possível, para que a noite passe e o dia especial e tão esperado da viagem com sua avó, chegue. A ansiedade toma conta da mente inocente e imaginativa do garoto que tem apenas 8 anos de idade. As imaginações estão fervilhando dentro da cabeça do menino que está com dificuldade para dormir. Por muito tempo ficou observando através das frestas da parede da humilde casa de madeira, o vulto da sua avó ocupada em seus afazeres, até que o sono chegou sorrateiramente e sem avisar. Ele adormeceu com um singelo sorriso em sua face.

Finalmente o dia amanhece, e já estão os dois a espera do ônibus que está vindo de Clevelândia, e que, passando pela localidade do Rincão Torcido, tem como destino a cidade de Palmas. A distância é pequena, porém, considerando as condições de mobilidade da época, era uma viagem que não se fazia todos os dias.

Parece que quando se tem pressa, e isso podia ser notado pela inquietude do menino, o tempo não passa. A espera parece ser interminável, mas, depois de um longo tempo, para a alegria do menino, lá vem ele: o velho ônibus apontou ao longe, na estrada.

O ônibus chegou, e sem demora eles embarcaram. Não parecia tão confortável quando comparamos com os atuais. Seus bancos de couro são menores, mais baixos e próximos. Tinha um bom número de passageiros, mas, pelo menos, não estava lotado.

Ali estavam pessoas desconhecidas que por motivos diferentes, tinham o mesmo destino. Dentre todos, um jovem senhor, de estatura baixa, sentado na poltrona imediatamente a frente à escolhida pela Srª Ambrosina, com a cabeça inclinada parecendo tirar um cochilo sem a menor preocupação e sem perceber qualquer coisa que pudesse estar ocorrendo naquele ambiente.

Também era notório que tratava-se de uma pessoa extremamente cuidadosa com a aparência, e que fazia questão de não sair de casa sem ter seu cabelo engomado e alinhado pela Brilhantina².

Em certo momento daquela viagem, a carinhosa vó Ambrosina ofereceu frango com farinha ao garoto levado³, que afoito pegou a lata onde estava o frango enfarinhado, pois precisava curtir cada momento e ingrediente daquele dia especial. Não era fome, era a ocasião...

Enquanto aproveitava cada momento da divertida viagem, o menino feliz e irrequieto lambuzava-se com a gordura do frango misturada a farinha. Mas ele não apenas se lambuzava, a farinha já estava esparramada pelas suas pernas, pelo banco e pelo chão do ônibus. Onde colocava a mão, lá ficava a marca, uma quantidade de farinha gordurosa. E em meio a tanto entusiasmo, ninguém percebeu que, em determinados momentos, a farinha engordurada que caia das mãos do menino, também estava sendo depositada exatamente nos cabelos daquele homem distraído que estava no banco da frente.

Isso continuou até que dona Ambrosina percebeu o que estava acontecendo. Então a avó totalmente desconcertada e incomodada pela situação, tomou a lata que continha o frango com farinha e a guardou, sem encontrar jeito ou coragem de falar ao homem sobre a situação em que se encontrava seu cabelo, enfarinhado.

Quando finalmente chegaram ao destino daquela que se tornara uma angustiante e interminável viagem, desceram do ônibus rapidamente sem nada dizer.

A Brilhantina, associada a gordura, parece ter criado a condição perfeita para a farinha que permaneceu naquele cabelo durante toda a viagem, e até, não se sabe quando.


¹Permínio Dermeval Leite - até hoje mais conhecido por “Derme”

²Cosmético apresentado na forma de pomada utilizado para modelar o cabelo

³Travesso

Jôni Leite

Comments


bottom of page