PARTE

Nilton Luiz Pacheco Loures

Nascido em Clevelândia-Pr, Ex professor universitário,
Advogado, gestor ambiental, pós graduado em Direito Processual Civil e Direito
Ambiental, escritor, compositor, e membro fundador da Academia de Cultura do Sudoeste do Paraná.

 Contos & Crônicas - Parte 2

15 de Maio de 2019

A "NANIQUINHA" PINTADA

Lá pelos idos anos da década de 1970 na centenária Clevelândia, um grupo de amigos já cansados de assistir a novela “Irmãos Coragem” num televisor preto e branco da marca “Colorado RQ” que alguns mais criativos colocavam na tela, um celofane “degradê” vermelho, azul e verde (para dar um toque de cores na imagem “chuviscada da época- e a convite do meu irmão Nilson, (in memorian) combinaram em fazer um “brodo” lá em nossa casa, na velha rua “Chico Beltrão”, aproveitando que estava sozinho, pois a família havia ido a fazenda vacinar o gado, e somente retornaria no outro dia. O convite foi aceito de imediato. Evidentemente a “rapaziada” não tinha muita experiência na cozinha e se programaram de última hora, ou seja, nem mesmo havia a galinha para fazer o caldo. Por certo isto não seria problema ! De comum acordo repartiram as tarefas, e indicaram um dos amigos para “providenciar” uma galinha para o suculento prato. Enquanto um cortava os temperos, outro colocava água para ferver, outro arrumava os pratos na mesa, e o encarregado da missão foi “negacear” no terreiro do vizinho uma galinácea, mas não conseguiu porque aquela hora da noite todas já haviam se recolhido ao galinheiro. Pensou consigo, seria muito arriscado pular a cerca para cometer o pequeno furto e ser pego em flagrante pelo dono da casa, além do mais poderia haver algum cachorro solto no pátio.  Após algum tempo depois, ele entrou na cozinha com uma “penosa” na mão, já em óbito, dizendo que havia surrupiado do vizinho. Pronto ! Mãos a obra ! O jantar já está garantido ! exclamou radiante. Tão logo começaram a “depenar” a galinha, foram surpreendidos pelo dono da casa que chegou subitamente, -pois havia faltado vacina e precisou vir comprar na cidade para levar no outro dia cedo. Ao se aproximar da pia onde a galinha já estava depenada, interrogou:

 - Pelo jeito vão fazer um “brodo”, onde conseguiram essa galinha ? 
- Eu trouxe de casa Sr Mozart ! falseou a verdade, o autor da peripécia.
- Tá mentindo rapaz, essa galinha era a “naniquinha pintada” minha galinha de estimação, estou conhecendo pela cor das penas, você pegou ali no galinheiro ! 
Diante do silêncio, todos se entreolharam e constataram que o dono da casa estava certo. A “naniquinha” já estava morta mesmo, desenxabidos prosseguiram, a água já estava fervendo. O fato é que ninguém teve coragem de convidar o dono da casa para o jantar, -afinal o filho do dono estava junto. Mesmo envergonhados aproveitaram para se deliciar com a carne macia da “naniquinha”

 

Glossário:

brodo- uma espécie de caldo feito com galinha e muitos temperos, típico da cozinha italiana.
degradê- do francês (dégradé, sequência de tons contínuos. 
desenxabido: aborrecido, monótono

galinácea- aves domésticas, galinha, peru, etc

Nanica- galinha da raça pequena
negacear: atrair, provocar..

Celofane: película fina e transparente flexível. 
negacear: enganar, iludir
peripécia: acontecimento inesperado, imprevisto

Surrupiado: furtado

 

O  MEDO DA ONÇA PINTADA

Era um homem de estatura baixa, caminhava com dificuldade arrastando a perna direita, que nunca mais voltou a ser a mesma, depois que um burro “chucro” caiu encima dela, após ter empinado na rédea segura de quem o montava. Caiu o burro que o levou ao chão, mas não caiu o domador !  O meu amigo Venâncio, nasceu em Campo-Erê-SC e foi criado pelo meu avô Lanico Rocha em Clevelândia. Era compadre de meu pai. (Mozart Rocha Loures) Figura doce, prestativa, muito popular na cidade e de uma educação invejável. Nunca respondeu um sim ou não a qualquer pessoa, se não fosse acompanhado da palavra senhor ou senhora. Sim senhor, não senhora !  Era o mais fiel companheiro de meu pai nas suas andanças. Toda vez que ele ia na fazenda, Venâncio estava  “a postos” esperando na frente de sua casinha de madeira, lá pras bandas do  Peleguinho. (antigo bairro desta cidade) Ele fazia questão de acompanhar meu pai e abrir os portões existentes no trajeto.  Meu pai, um homem espirituoso e bem humorado, a cada vez que Venâncio embarcava no velho Jipe Willys 1964 de cor alaranjada, exclamava: Vamos compadre, você vai com Deus, eu vou com as virgens !  Venâncio meio sem jeito, exibia um sorriso amarelo, e encabulado respondia: O Senhor é sabido né compadre ! Mas  o grande amigo de meu pai tinha um grande problema:  Não podia falar em onça pintada que ele “morria” de medo.  Por conta desse medo, o meu pai “aprontava” pra cima do seu compadre.  

Venâncio

Certa vez o capataz da fazenda, em conluio com meu pai, e conhecendo o medo mórbido de Venâncio, foi até o pequeno riacho nos fundos da fazenda, sabendo que ele ia passar por aquele local, e simulou com a ponta dos dedos, no barro cinza de entrada do pequeno córrego, pegadas semelhantes aquelas da “pintada”. Não tardou para que Venâncio passasse no local, e ao reparar os “rastros” da onça, saiu manquitolando em desabalada carreira até a sede da fazenda. Ao chegar ao portão de entrada, ofegante, se dirigiu ao seu compadre -que sabia de toda a “tramoia”-  enquanto  cevava um “amargo” com o capataz da fazenda, tendo indagado: - O que foi homem ?  Parece que viu um fantasma... -Venâncio tomou fôlego e respondeu com a voz entrecortada: - Muito pior compadre, eu vi as pegadas de uma onça ali no riacho, e pelo tamanho, “ela mata um touro só com um tapinha”... Aproveitando um momento de distração de Venâncio, meu pai olhou para o capataz e ambos esboçaram um riso de cumplicidade.  Tão logo Venâncio se recuperou do susto, se assentou num banco de madeira, e após tomar uma cuia de chimarrão, escutou uma proposta de seu compadre. - Olha compadre, eu estive pensando agora, e já que esse bicho está tão perto,  antes que ele venha até o terreiro da fazenda pegar algum carneiro, ou matar algum bezerro, vamos matar essa medonha.  Venâncio ainda não totalmente recuperado do susto, indagou: - Mas como vamos fazer isso compadre ? Ele respondeu:- A minha ideia é a seguinte: Eu tenho uma espingarda boa e um cachorro treinado para caçar onça. Nós saímos na madrugada antes de amanhecer o dia, a procura desta “gata pintada” O Senhor vai na frente com uma boa lanterna, eu vou na sua retaguarda com a espingarda engatilhada, pronta pra detonar. -Suando frio Venâncio escutava em silêncio. E meu pai prosseguiu:- Quando o senhor achar o bicho, vai  se aproximar dele, o mais perto possível, sempre focando a lanterna nos seus olhos , quando ele se preparar para saltar encima do senhor, o compadre se abaixa e eu “sapeco” um tiro com a minha “espalha chumbo” na cara da bichana. Pronto, esta  resolvido o problema. -Que acha da ideia compadre ? Em estado de choque, Venâncio coçou a barba, e respondeu com toda a sinceridade.- Olha compadre, me perdoa, mas se for pra deixar o senhor no mato antes mesmo de acender a lanterna, eu prefiro não ir!  E todos acabaram rindo.....Numa tarde dessas em visita a fazenda, passei naquele riacho, e tive a impressão de ter visto as pegadas de uma pintada. Senti saudades do meu amigo Venâncio, rezo para que na plaga celestial, ele não encontre nenhuma onça que lhe possa causar medo. 

 

UMA ATITUDE DE CORAGEM!!!

Naquela noite como era de hábito no tempo feliz da minha juventude, resolvi sair de casa a noite para ir ao Clube Cassino Clevelandense reunir com os amigos Zenon, Juarez, Lolô, e Nirval para conversar e tomar uns “tragos”. O meio de locomoção da época no pequeno povoado de Clevelândia da década de 1940, era feito a cavalo. Alguns poucos fazendeiros mais abastados, tinham automóvel. Encilhei meu cavalo, alcei a capa de chuva nos ombros, coloquei o chapéu na cabeça, a lanterna no “pessuelo” e o “38” na cinta, e saí da velha rua São Sebastião onde morava com meus pais, indo em direção ao clube. No trajeto, a escuridão, o silêncio e a companhia da lua que de “tempo em tempo” dava o ar de sua graça,  quando as nuvens a descobriam, refletia sua luz prateada sobre a grama e a copada das árvores que se agitavam ao vento, prenunciando chuva para a madrugada.  Ao chegar, apeei do “pingo” amarrando o buçal na costumeira trava de cerca, e fui ao encontro dos amigos que já me esperavam. Entre um trago e outro, um dos amigos me indagou se não tive medo de ir até lá, pois a conversa a “boca miúda” na cidade, é que havia uma “assombração”  numa pequena mata escondida e que fazia um grande “barulho”  afugentando a todos que por ali passavam. Senti um estranho arrepio, pois por coincidência, a descrição era no caminho que havia percorrido alguns minutos atrás sem ter percebido nenhum barulho estanho. Respondi que não havia escutado nada que me chamasse atenção.  A conversa mudou de rumo e o tempo foi passando até que chegou o momento de retornar para a casa.  Me despedi dos amigos, marcando um outro reencontro para a noite seguinte,  e cada qual seguiu o seu caminho de volta pra casa. Montei a cavalo retornando pelo mesmo caminho, e percebi que a lua estava encoberta, as nuvens anunciavam a proximidade da chuva, o vento sibilava, soltei as rédeas para que o cavalo apressasse o passo, até o momento em que me aproximei do mato. Imediatamente me lembrei da notícia da “assombração” e senti muito medo,  mas no fundo não acreditava que pudesse ser verdade. Ao passar nas proximidades de uma  árvore de caneleira, ouvi um forte barulho que vinha do alto, e não tive nenhuma dúvida em cutucar as esporas no cavalo, galopando até o final do mato para fugir daquela coisa “sobrenatural.”  Refeito o susto, parei o animal e comecei a pensar:  Mas é muita covardia eu fugir dessa forma. Estou com um revólver na cinta, e  uma boa lanterna, vou descobrir seja o que for de onde vem esse barulho. Dividido entre o medo e a coragem, virei as rédeas do animal e retornei com a arma na mão direita, adentrando no mato em direção de onde havia escutado aquele barulho tenebroso. Não demorou muito para que o barulho se repetisse, mas desta vez permaneci no lombo do cavalo que se assustou, mas segurei firme as rédeas. Com a mão esquerda peguei a lanterna e direcionei o foco de luz para a velha caneleira frondosa que se agitava sobre o vento. Não tardou para eu descobrir que a assombração nada mais era do que um grande urubu que não podia alçar voo, pois estava preso na forquilha de um galho e se debatia por entre as folhas fazendo um grande barulho. Uma sensação de paz me invadiu por ter descoberto o que era a “assombração” e principalmente por ter tido a coragem para retornar.  Fui para casa  assobiando feliz ! No outro dia fui até a árvore onde a ave estava presa e com uma  “taquara”  retirei o “bicho” daquela posição incômoda. Pronto !  Acabou a assombração !! Realmente, o medo faz a gente imaginar coisas que não existem !!!

 

Glossário:

Alcei-  Altear, erguer, levantar.

pessuelo: termo usado na cultura gaúcha. Mala de garupa para levar utensílios.     

apeei-  descer, colocar-se  no chão.

pingo- dialeto gaúcho, cavalo.

“boca  miúda” : fofoca, sem lastro de verdade, comentários sem comprovação.

Sibilar: produzir som agudo como um assobio; assobiar, ciciar, silvar.

assombração: fantasma que assombra, que causa terror; alma do outro mundo, aparição, coisa sobrenatural.

buçal- parte do arreamento do cavalo que se prende à sua cabeça e ao pescoço; 

frondosa: folhuda, ramosa; que tem muitas folhas, coberto de folhas

Urubu:  é uma espécie de pequeno abutre, corvo, que se alimenta de material em decomposição.

 
 

O HÁBITO DA SOBREMESA...!

Apolinário era um caboclo “bonachão” que vivia em “priscas eras” no interior do município de Clevelândia, trabalhando como capataz numa fazenda. Certa ocasião foi convidado para ir almoçar na fazenda de um casal de amigos, e como não dispensava uma “carne de panela” aceitou o convite de imediato. Apolinário era “bom de garfo” mas tinha um costume pouco comum, era viciado em sobremesa. Por mais que repetisse o prato, sempre deixava um espaço no estômago para acomodar o complemento. Depois de ter repetido por mais de duas vezes aquela apetitosa carne de panela com batatas, Apolinário limpou a boca com o guardanapo quadriculado que estava ao lado do prato, e exclamou: Estou satisfeito, almocei muito bem !   Evidentemente estava aguardando a sobremesa que não tardou a vir, e se deleitou com um saboroso pudim.   Em outra oportunidade Apolinário foi jantar na casa dos “compadres” e depois de se fartar com uma “galinha caipira” arrematou com um doce de abóbora. Noutra vez foi jantar na casa do vigário da paróquia, e seguindo o costumeiro ritual, não recusou uma taça de sagu que lhe foi oferecida. E assim seguiu Apolinário neste itinerário rotineiro, não admitia de forma alguma que aquele pequeno compartimento do estomago ficasse vazio por falta de sobremesa. Naquela manhã o fazendeiro determinou Apolinário que encilhasse o cavalo e fosse ajudar o peão a sinalizar uma cerca de arame que estava sendo construída para separar o gado em duas invernadas e só retornasse bem de tardinha, depois do serviço pronto. Após  muito trabalho e já próximo do meio dia, o peão convidou Apolinário para ir almoçar no seu pequeno rancho, para depois retornarem para a finalização do serviço. Tão logo chegou na modesta casa do peão, percebeu a esposa daquele cortando alho e cebola para temperar o feijão, que exalava um “cheirinho” convidativo.

- Bom dia Seo Apolinário, o senhor sente e fique a vontade, daqui nadinha já vou servir o almoço, disse a simpática mulher.

-Bom dia Dona Marica, respondeu Apolinário, sem tirar o olho do feijão que borbulhava na panela de ferro sobre a chapa do fogão. 

 Após um dedo de prosa do peão e o capataz, a mesa foi servida e todos sentaram para almoçar.

- O Sr. nos desculpe Sr. Apolinário, aqui é casa de pobre, não repare se não tiver do seu gosto  ! Por favor se sirva !

Apolinário agradeceu a D.Marica  e tratou de encher a concha de feijão na própria panela de ferro, e serviu-se de arroz e salada. Apesar de não ter carne, aquele feijão de caldo grosso e temperado com alho,  já era o suficiente para satisfazer a sua fome. Comeu desbragadamente, repetiu, e repetiu, mas sempre preocupado em deixar um cantinho do estômago para preencher com a sobremesa.

- Tire mais feijão, Sr.  Apolinário, interpelou D.Marica.

- Não... muito obrigado, estou satisfeito.

- Por favor não se acanhe, pegue mais uma concha, insistiu...

-Muito obrigado, estava ótimo, comi muito bem.

- Nesse momento o peão alertou...

- Se sirva mais um pouco, porque não tem sobremesa....

Ao ouvir a informação, Apolinário ficou desconcertado por alguns momentos; olhou para o que ainda restava no fundo da panela de feijão, e com ar de surpresa, interrogou:

Ah mais é feijão preto ? Então vou comer mais um pouquinho.....

Afinal o estômago por certo ia reclamar pela falta da sobremesa !.

 

NADA É TÃO RUIM QUE NÃO POSSA PIORAR.!!!.

Nas décadas de 1920 e 1930,  o rei do Cangaço Virgulino Ferrreira da Silva, mais conhecido por Lampião, comandava um bando armado de cangaceiros que espalhava terror no sertão nordestino. Uma noite, o bando chegou numa pequena cidade da região da caatinga e foram se divertir num forró.  A festança estava animada ao som de muito baião e xaxado quando de repente  o capitão Virgulino sacou de sua garrucha, e apontou para o sanfoneiro ordenando:  - Pare a música, cabra da peste  ! Surpreso, sob o olhar assustado de todos, parou imediatamente de tocar sem  ao menos fechar a gaita, temendo que  qualquer sopro que dela saísse, pudesse lhe  custar a vida.  O precavido sanfoneiro,  sabia da fama do capitão. De arma em punho, o famigerado cangaceiro,  deu um giro e ordenou a todos que estavam presentes,  em tom ameaçador: - Quero ver todo mundo pelado ! Tirem toda a roupa ! Andem, vamos seus lerdos !!! Sem esboçar qualquer reação, todos começaram a tirar suas vestes, inclusive às peças íntimas.  Após uma rápida olhada em todo o salão, o capitão se dirigiu novamente ao sanfoneiro e bradou em voz alta: - Segue a música !  Quero ver todos dançando ! A situação era realmente constrangedora, todos os pares dançando juntos, sem roupas, sob o apupo e risos da plateia de cangaceiros, que se divertiam diante da inusitada cena. Não tardou muito para que o capitão interrompesse novamente o baile, e agora com uma ameaça absurda:- Pare a música ! Quero todo mundo com um dedo na bunda e outro na boca !  Cada um rodando com seu par !  E não abram a boca !  Senão levam chumbo ! Nada é tão ruim que não possa ficar pior, não havia outra solução, que não fosse cumprir as ordens do cangaceiro ! -Segue a música, sanfoneiro, interpelou uma vez mais. E o sanfoneiro tocou mais um forró animado, bendizendo ao “Padim Ciço”, por não estar no salão dançando naquela situação vexatória.  E o baile prosseguiu....Não falei  que o que tá ruim pode ficar pior ? Pois o rei do cangaço aprontou mais uma. Pare a música sanfoneiro !  gritou o capitão Virgulino - Vocês todos devem estar cansados nesta posição.  Agora troquem de dedo !!!!! Um matuto lá no canto do salão não aguentou tanta humilhação e reagiu: Tá louco capitão....  Tá louco capitão......! Com a garrucha engatilhada, Lampião colocou o cano próximo a boca do “desobediente”  e perguntou: Quem tá louco ?  Se borrando de medo o matuto respondeu:  oxente cqpitão...Tá louco de bom ..tá louco de bom...E o baile prosseguiu

O DIREITO PROTEGIDO !!!!

Naquela tarde chuvosa de um dia de inverno, um forasteiro de barba cerrada e olhos pretos, adentrou na loja da família Zardo nesta cidade de Clevelândia e dirigiu-se ao balcão onde se encontrava  Arival  Zardo e alguns funcionários atendentes.  Arival era um dos filhos do proprietário do estabelecimento comercial, e anos depois foi eleito prefeito da cidade. Desde logo perceberam que se tratava de uma pessoa preocupada, pois seguidamente olhava de soslaio para a entrada da loja, parecendo que se escondia de alguém .

Boa tarde ! indagou o forasteiro “mal encarado”

Boa tarde ! todos responderam  

O que o senhor deseja !  interpelou Arival.

O Sr poderia me dizer quem é o melhor advogado da cidade ?

Os funcionários e Arival se entreolharam, e tiveram a nítida impressão de que aquele sujeito havia cometido algum crime.

O Senhor teve sorte, veio no local certo respondeu Arival.

Aqui o senhor vai encontrar três grandes profissionais pra escolher, e com certeza o seu direito estará bem protegido!

Nós  temos “Deus” o “Justo” e o “Santos”

Não entendi, o Senhor poderia me explicar melhor, disse o forasteiro.

Claro, tem o Dr João de “Deus” Motta, o Dr “Justo” Galves Filho e o Dr Climério Teixeira dos “Santos”.   

O cidadão bem mais aliviado agradeceu, despediu-se e saiu.

Não se sabe quem contratou, mas por certo estaria em “boas mãos com qualquer um dos nobres causídicos. !  )Uma homenagem, aos três advogados e Arival Zardo, (todos de saudosa memória, pioneiros desta terra, e que tive a grata satisfação de conhecer)  bem como, o  senso ético de Arival Zardo.  

(Ser ético é agir dentro dos padrões convencionais, é proceder bem, é não prejudicar o próximo.!!! (Adaptação que fiz de um relato  narrado por Idevaldo Zardo)

 

UMA APOSTA GANHA! (ATÉ CREDO, QUE NOJO!)

Lá pelos idos de 1980, havia em nossa cidade um personagem que foi importante no contexto geral para o desenvolvimento do nosso município, e nos deixou muitas saudades. Dentre as histórias em que ele foi protagonista, me recordo perfeitamente a sua forma de se expressar quando duvidava de algo que não admitia ser verdade.  Nestas situações, ele sem pensar e em alto e bom tom dizia: ATÉ CREDO, QUE NOJO !!. Num domingo, assistindo em sua companhia um jogo de futebol entre o TABU e um adversário que não recordo, no lendário Max Stahlschimidt, nesta cidade, o nosso saudoso “auri negro”, perdia por 2 X 0, quando terminou o primeiro tempo. Um torcedor do time adversário, incontido, ficou em pé e corajosamente exclamou “ Hoje vamos golear esse timeco !  O meu amigo não deixou por menos, muito irado, virou-se para trás e de maneira firme respondeu: ATÉ CREDO, QUE NOJO, complementando:  não esqueça que o jogo não acabou. Ainda tem o segundo tempo. Dito e feito. Numa das suas maiores atuações,  em jogo emocionante que o nosso querido amigo e goleiro Jaime pegou até pênalti, o time retornou para o segundo tempo, e de maneira espetacular,  virou o resultado para 3 X 2.  Não vimos mais ao final do jogo, aquele torcedor  “precipitado” que ousara falar tamanha  “blasfêmia”.  E assim se passavam os dias. Quando não admitia que algo pudesse acontecer, de pronto o meu amigo respondia a quem quer que fosse:  ATÉ CREDO, QUE NOJO !!  Num dia de disputada eleição para prefeito em nosso município, antes do horário de fechar as urnas,  (naquele tempo o voto era apurado manualmente) e conversando numa roda de amigos sobre quem seria o vencedor do pleito, presenciei uma aposta interessante entre dois conhecidos. Um deles, muito amigo do nosso personagem, desafiou o outro que não o conhecia, propondo: Quer jogar comigo, uma caixa de cervejas, que aquele moço, antes mesmo de me cumprimentar, vai  dizer  ATÉ CREDO, QUE NOJO  ? O desafiado sem pestanejar, e achando aquilo pouco usual, respondeu de imediato: não acredito está feita a aposta, e apertou a mão do desafiante.  Pensei comigo, vai ser “mais fácil do que tirar doce de criança”, afinal, conhecia bem aquela simpática figura.  Em seguida, o desafiante lentamente se aproximou dele,  e ficou posicionado de costas para a roda de amigos. Sem nada dizer nem esboçar qualquer cumprimento, quase de imediato, ouvimos ele esbravejar: ATÉ CREDO, QUE NOJO !!  Olhei para o lado e vi o desafiado perplexo, sem entender nada, com a expressão típica daqueles que perdem uma aposta.  Não demorou para que o desafiante retornasse ao grupo. Ganhei a aposta, e agora vamos buscar a cerveja para todos beber !!. O desafiado concordou, e ainda surpreso, indagou ao feliz ganhador:  Só por curiosidade, pode nos dizer o que foi que você disse  para ele responder daquele jeito ? Claro. Disse a ele que um cabo eleitoral do seu adversário,  tinha me dito que o  candidato que ele fazia campanha, não iria se eleger e perderia a eleição com mais de dois mil votos.  A sua revolta se justificou. O candidato dele ganhou com sobra. Mais uma vez, ele estava certo no seu prognóstico !      

 

UMA QUESTÃO DE PROPAGANDA!

A velha lotação parou defronte a um mercado de secos e molhados na  praça Getúlio Vargas e ficou escondida pela  nuvem de poeira que levantou..  Algum tempo depois, desceu dela  o único  passageiro, devia ser  um mercador ambulante que vendia mercadorias a domicilio, pois carregava consigo uma pequena sacola, e seguiu viagem.  O sol escaldante do mês de novembro refletia no rosto do viajante brotando gotas de suor.  O moço tirou o chapéu, sacudiu a poeira e se encaminhou para o mercado a fim de tomar um refresco.  A pequena população do município de  Clevelândia no final da década de  1950 vivia a expectativa da  eleição para a escolha do prefeito municipal. disputada por dois candidatos.  Não se falava outro assunto na cidade, e era arriscado apostar quem seria o vencedor, pois os dois candidatos eram  pessoas muito estimadas na comunidade, e quem ganhasse a população ficaria bem servida. O forasteiro entrou na padaria e se dirigiu ao balcão, indagando: - Moço por favor, você tem um refresco para eu ”matar”  a sede ? - Sim. Aguarde um instante por favor ! Enquanto aguardava o viajante sentou-se a mesa próximo a janela, e observou que  na mesa do lado estava um homem de  meia idade, barba rala e  um chapéu de palha. Reparou pelas vestes e aparência rústica, que se tratava de um “matuto” -  um caipira tímido, e  sem traquejo social, que tomava vagarosamente um “gole de canha” - que insistia em fazer  espaçadamente sem pressa, para sorver melhor o gosto da cachaça. Neste intervalo, com habilidade, alisava a palha para fazer um cigarro de “fumo amarelinho” que já estava “cortado”  sob  a envelhecida toalha da mesa. O forasteiro reparava o todo o “ritual”  daquele modesto caipira, e não resistiu a tentação de “puxar” um dedo de prosa com ele.

- O senhor mora por aqui ?

- Não  “seo” moço, minhas “paragens”  é numa fazenda perto do Rio Chopim, só vim na cidade hoje comprar uns “precisos” que a muié  me encomendou.

- Então volta ainda hoje pra casa ?

- Sim, só parei pro meu “burro” descansar enquanto tomo uma “pinga” e fazer  um “paiero”

- Me diga uma coisa, como é que está a política por aqui ?

- “Óia” moço, eu não compreendo muito bem desse negócio, não sei nem votar, pois não aprendi a “juntar” as letras, mas só o que “escuito” é  falar disso.

   - Sei....e na sua opinião quem ganha ?

-  Não “cunheço” os candidato, mas se propaganda “resorvê” vai ganhar aquele candidato ali da folhinha da parede, tá em todo o lugar.

- É o “tar” de  Tomé Sador !!!.

O viajante se esquivou na cadeira para não rir, quando viu a propaganda que dizia:

Tome Sadol   o melhor fortificante !   Nesse momento chegou o moço com o refresco, e o “caipira” se despediu amigavelmente...Inté mais ver !!!!   (História real contada pelo meu querido pai, que adaptei.

 

A CRÔNICA DO "PEDRO"

Aquele velho fazendeiro da nossa terra já andava preocupado, pois não conseguia encontrar um bom capataz para cuidar da fazenda.  Tentou por diversas vezes encontrar o “peão” certo, mas em pouco tempo, os que havia contratado não demonstravam ter queda para a lida do campo.  O último que havia contratado, era um afilhado seu, chamado Pedro, mas também não deu conta do recado e foi dispensado. Numa manhã de inverno, chegou na sua fazenda um cavaleiro bem “pilchado”,  e já foi logo se apresentando. -Bom dia patrão, meu nome é Pedro, venho lá da campanha onde os  “caranchos fazem ninho na macega” e queria saber se não tem interesse num capataz pra fazenda ?.  

O velho fazendeiro, vivido e experiente, num primeiro momento achou o “candidato” a capataz meio falante, mas como precisava de alguém para o ofício, levantou a aba do chapéu e sem maiores delongas respondeu de pronto: -Tenho interesse sim. Pode ir ao galpão desencilhar esse “gateado” e ajeitar suas coisas, que depois vamos falar do trabalho e do seu salário. Após ter contratado e acomodado o novo capataz, ordenou na manhã seguinte que o mesmo fosse buscar um lote de gado que se encontrava numa restinga não muito distante da fazenda. Muito tempo se passou, e o peão não conseguiu trazer o gado para a mangueira. O velho fazendeiro já quase acostumado com aquela rotina de não encontrar a pessoa certa, dispensou Pedro. Transcorrido alguns dias depois, após conversar com um compadre, pediu se não conhecia algum capataz que pudesse trabalhar na sua fazenda, mas fez uma exigência:  como já havia empregado duas pessoas de mesmo nome e não havia dado certo, por prevenção, pediu ao compadre que o futuro candidato não se chamasse “Pedro”. O compadre prometeu ajuda-lo, e não tardou muito para conhecer um jovem cavaleiro muito bem recomendado por outros fazendeiros da região, mas tinha um problema: seu nome era “Pedro”. O fazendeiro sabendo da exigência do seu compadre, combinou com o rapaz, para que não dissesse o nome verdadeiro e se apresentasse na fazenda daquele,  com o nome de “Sebastião.  Dito e feito. O fazendeiro gostou do novo capataz e resolveu contratá-lo. Trabalhou por muitos anos  na fazenda, sempre dedicado e cuidadoso com os animais. De vez em quando ia para a cidade tomar uns tragos e retornava “só de um lado do cavalo” meio desiquilibrado pela efeito da “marvada”, mas não incomodava ninguém. Numa festa de Nossa Senhora da Luz, padroeira da cidade, os compadres se encontraram para um “dedo de prosa”  e um “gole de canha” tendo  um dos compadres perguntado ao outro: E então meu compadre, como vai o Sebastião, seu capataz, aquele  que  indiquei ?  O compadre tomou o último gole de trago e lhe respondeu. Olha meu compadre, ele não é mau capataz e faz as suas obrigações, mas vou lhe ser sincero, QUE ELE TEM QUALQUER COISA DE “PEDRO”, ISSO  ELE TEM !  (Crônica adaptada de uma estória contada pelo meu querido vô Lanico, enquanto a gente comia pinhão, perto do “fogo de chão” numa noite de inverno na fazenda. Saudades !  Obs: Os nomes são fictícios e não há nenhuma discriminação as pessoas chamadas de  Pedro, o nome foi mantido  tão somente, para preservar a originalidade da estória.)          

 

Glossário:

 

  1. Pilchado- indumentária tradicional da cultura gaúcha

  2. Gateado- cavalo de pêlo cor amarelo-avermelhado

  3. Restinga- terreno arenoso coberto de vegetação

  4. Carancho- ave de rapina, o mesmo que “carcará”

  5. Macega- porção de campo com capim muito alto  

 
 

A FRUSTRAÇÃO DA VAIDADE!

Mozart Rocha Loures, (com 7 anos de idade)  

Naquela manhã gélida do mês de julho do rigoroso inverno de Clevelândia, lá pelos idos da década de 1.930, os raios de sol começavam timidamente a acariciar os blocos de geada na Praça da matriz. Apesar do frio intenso, não era o bastante para desencorajar aqueles três amigos, com idade entre 07 e 08 anos, de jogar bolinha de gude no campinho de terra defronte a velha igreja Nossa Senhora da Luz.  Afinal, haviam tratado o “jogo” e naquele tempo, “trato era trato” e havia castigo para quem não cumprisse, a não ser que a ausência fosse justificada por motivo de força maior. Assim faziam todos os domingos exceto quando havia muita chuva. Tinham as falanges ásperas e os joelhos ralados pela posição genuflexa exigida para praticar o esporte. Na hora marcada, os meninos vestidos de calças curtas de brim, sandálias “surradas” e camisas de flanela com os bolsos cheios de bolinhas de gude, se encontraram no local combinado. Delimitaram o “campinho” encoberto pela poeira,  traçaram o risco e o “triangulo” e  “casaram” as  bolinhas de gude para iniciar o jogo.  Não tardou para perceberem a presença de um menino desconhecido, que se aproximou do campinho. Ele trajava um “terno xadrez do mesmo tecido do boné, um cachecol no pescoço, luvas de couro, e sapatos pretos de verniz.  Era a primeira vez que o avistavam, por certo e pela aparência, era alguém que não morava na cidade, talvez morasse na capital e tivesse vindo a passeio na casa de algum ilustre fazendeiro. O menino elegante procurava chamar a atenção dos outros  meninos, que continuavam na disputa acirrada na espera do  tilintar das bolinhas que confirmavam uma jogada vitoriosa.  Mas o menino garboso se mostrava irrequieto diante a total falta de atenção para consigo. O vento assobiava nas folhas das árvores da praça. Sem conseguir ficar ignorado,  o menino bem vestido se dirigiu aos jogadores de  “bulita” e interpelou:

-  Vocês não estão com frio ?

-  E um deles respondeu com a  monossilábica negativa:

-  Não !

- Muito me admira, pois eu que estou agasalhado  com um” terno de casimira”  estou, 

   imagino vocês que parecem maltrapilhos !

- Os meninos inocentes não se ofenderam  com a empáfia do menino, pois sequer sabiam o que era “casimira”, ficaram calados, prestando atenção no jogo, perceberam porém, que o objetivo do menino rico era demonstrar unicamente a sua vaidade, tripudiando a simplicidade da vestimenta dos garotos. 

Decorridos alguns instantes, o menino bem vestido saiu frustrado, em silêncio na direção da rua, e desapareceu entre a neblina que aumentava indicando prenúncio de chuva ! Os meninos recolheram seus pertences e felizes retornaram para casa, cada qual exibindo as “bulitas” que haviam ganho na disputa.  A felicidade se manifesta nas coisas simples, a vaidade é uma aparência ilusória, na maioria das vezes  maquiagem  do verdadeiro caráter !!!

Os meninos eram Mozart Rocha Loures, (meu pai querido)  Zenon Arruda  e Dorvalino Camargo. 

 

 

Glossário: 

1. bolinha de gude:  é um  jogo conhecido desde as civilizações grega e romana. O nome “gude”      tem origem na palavra “godê” que significa pedrinha redonda e lisa. Atualmente a bola de              gude é feita de vidro colorido. Risca-se um triângulo na terra e coloca-se uma bola de gude em      cada vértice.

2. Casimira:   Designação de Cashmere", "Lã fina e macia, obtida a partir do pelo de cabras da          região da  Caxemira,  e de preço muito elevado.

3. genuflexo:  ajoelhado, de joelhos.

4. tilintar: ressoar, som agudo.

5. garboso: elegante, estiloso

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