PARTE

Nilton Luiz Pacheco Loures

Nascido em Clevelândia-Pr, Ex professor universitário,
Advogado, gestor ambiental, pós graduado em Direito Processual Civil e Direito
Ambiental, escritor, compositor, e membro fundador da Academia de Cultura do Sudoeste do Paraná.

NARRATIVAS

21 de Abril de 2019

Cel. Domingos Ferreira Pacheco

Cel. Domingos Ferreira Pacheco, era casado com Geltrudes Lustosa Pacheco, e tiveram muitos filhos, dentre eles o meu avô materno Atilio Lustosa Pacheco, proprietário da “Fazenda Trindade”, uma das mais antigas desse município.  Domingos foi um dos primeiros fazendeiros da então Villa de Bella Vista de Palmas, posteriormente Clevelândia. No ano da emancipação política do município (1892) foi eleito vereador com 52 votos, ocasião em que o fazendeiro Diogo de Souza Bello foi eleito prefeito. Posteriormente, foi prefeito de Clevelândia no quadriênio de 1.900 a 1.904.  A antiga “casa de pedra” localizada defronte ao atual Banco do Itaú, destruída na década de 1970. Segundo relatado por familiares, foi construída no Século XIX, pelo Cel. Domingos Ferreira Pacheco, em alvenaria de pedra, com um pavimento e telhado  em  quatro águas, inspirada num exemplar da arquitetura colonial. Era considerada a construção mais antiga do sudoeste do Paraná.  A casa de pedra lembrava a Casa Romário Martins, considerada a mais antiga de Curitiba, tendo sida tombada pelo Poder Público em 1.970.

Lamentavelmente a histórica construção, não foi preservada pelo inestimável valor histórico que representava, seja pela omissão do Município no seu tombamento,  seja pela falta de interesse dos descendentes.

O Cel. Domingos Ferreira Pacheco foi assassinado por índios juntamente com Candido Mendes de Souza no dia 14.09.1.915, no trajeto de Caçador-SC, no local chamado “Toldo dos índios” próximo ao local de sua fazenda.   Os restos mortais do Cel. Domingos Ferreira Pacheco, e de Cândido Mendes de Souza, foram sepultados no cemitério municipal de Palmas.

(Fonte- Entrevista de familiares e Livro Nossa Terra, Nossa Gente-Alzir Demetrio Viecili- 2003)  

 
 

21 de Abril de 2019

CAPELA CENTENÁRIA

A capela construída em pedra com hastes arredondadas que se encontra no Largo da matriz, é o monumento mais antigo do município de Clevelândia. A pequena capela foi construída há mais de cem anos, próxima a entrada principal da primeira Igreja de Nossa Senhora da Luz, na Praça Getúlio Vargas. Por iniciativa do clevelandense, Nilton Luiz Pacheco Loures, advogado, professor universitário e membro fundador da Academia de Cultura do Sudoeste do Paraná, (ACSUD), foi sugerido que a capela centenária que se encontrava sem destaque no Espaço Bandeirantes, no antigo cemitério desta cidade, fosse transferida para aquele local desde que mantida nos mesmos padrões de sua construção originária, pelo seu inestimável valor histórico. A Paróquia de Nossa Senhora da Luz manifestou-se favorável com a ideia e o município de Clevelândia através da sua Câmara de Vereadores, por unanimidade de seus pares, concordou que fosse erigida neste local em homenagem aos 40 anos de fundação dos padres claretianos. Em razão das constantes indagações sobre a sua origem, bem como a sua transferência, sugerimos que seja colocada uma placa explicativa próxima ao monumento.

 

Apoio: Prefeitura Municipal de Clevelândia, Paróquia de Nossa Senhora da Luz, Sonia Bortolini, Giovani Dal Pizzol e família, Família Calgaro, e os Padres claretianos Ozanilton Batista de Abreu, Tiago Almeida e Irmão Eduardo.  

 

Clevelândia,  11 de outubro de 2.017.

UM ALUNO IRREQUIETO

O Colégio  São Luís de Clevelândia, começou sua existência  em  1956, como entidade particular de ensino. Posteriormente   foi estadualizado,  sendo referência de  ensino na região a época dos anos dourados, -final da década de 1960-. Em 1982, passou a ser chamado de Colégio Estadual João XXIII, com nova sede e local até os dias atuais.  Naquela manhã do mês de setembro, o professor de matemática entrou na sala de aula do saudoso  colégio,  para ensinar às primeiras noções de álgebra. Dentre  os alunos,  havia um  menino moreno, de estatura baixa, franzino, e bastante irrequieto:  seu apelido era  “Pintinho”.  Era  inteligente,  tinha raciocínio rápido e absorvia com facilidade os conteúdos. Quase sempre terminava por primeiro as tarefas da sala de aula.  Exatamente por isso, após encerrar suas atividades, não dava sossego aos colegas, jogava papel, puxava o cabelo das meninas, enfim, perturbava bastante.   Após ter feito a “chamada” o professor foi até o quadro negro escrever equações para os alunos resolverem. Decorrido alguns minutos de concentração para a resolução dos exercícios, o professor escutou uma reclamação de uma de suas alunas:-

 Professor, o “Pintinho”  está puxando o meu cabelo ! 

O professor olhou para o irrequieto aluno, e o repreendeu,  tendo o mesmo baixado a cabeça.  Transcorrido algum tempo, ouviu novamente outra reclamação da mesma aluna:

Professor, o “Pintinho”  pegou o meu lápis. 

Educadamente o professor pediu que o  aluno o  devolvesse a sua colega.  Quando parecia ter serenado os ânimos do agitado aluno, o professor uma vez mais, foi chamado pela mesma aluna, que já não sabia mais o que fazer.

  Professor, o “Pintinho” não para de me cutucar aqui  atrás !  

De pronto, o professor  respondeu instintivamente

 Então coloca o “Pintinho  na frente” 

Depois disso, a turma toda começou a rir maliciosamente, e a aula acabou mais cedo. 

(Homenagem ao extraordinário Professor José Guerreiro de Paula, que ensinou matemática de forma magistral, a diversas gerações, inclusive a minha. “Pintinho” é um ilustre médico, conhecido por todos, trata-se do Dr Nereu Hugo Pacheco Loures. Meu irmão )  

 
 

Coral "OS LEGAIS"

Coral "Os legais"

Tendo como idealizadora a professora Neida Matielo, no ano de 1.969 foi instituído o coral “Os Legais” formado por estudantes do Colégio Estadual São Luis, de Clevelândia,  tendo como diretora a Irmã Maristela Grizza. O coral foi um dos primeiros do Sudoeste do Paraná, e fez grande sucesso na região.  Ao contrário dos corais clássicos, onde é explorado a qualidade vocal de seus participantes conforme a tessitura individual das vozes, os integrantes além de cantarem tinham uma coreografia própria para cada música apresentada, sempre ensaiado pela mesma Irmã Neida, que também possuía uma qualidade vocal diferenciada. O grupo era acompanhado por violão, e por cantores e instrumentistas reconhecidos do município,  como Valmor Padilha, Geraldo Vailatti,

Ubiraci Arruda e Carlos Doro, entre outros. O coral se apresentava em eventos, igrejas, cinemas, clubes, da região sudoeste, além de participação na TV Iguaçu de Curitiba e TV Piratini em Porto Alegre. Dentre as canções de maior sucesso da época, se destacavam  “Viva a gente”  “Uma gota” e Balada da Caridade.  No final da década de 1.960 e início da década de 1.970, o município de Clevelândia se destacava na cultura a nível regional.  Além do conjunto musical,  “Os Cavaleiros do Céu”  e posteriormente “Os Recentes” e  “Os Belgas”,  a fanfarra do Colégio Estadual São Luis com seu uniforme inspirado na farda dos soldados da guarda imperial  inglesa, fazia apresentações constantes nos municípios da região elevando o nome do Colégio e de Clevelândia.  Um grupo de teatro com repercussão na região, se apresentava no Pavilhão da Matriz. A peça teatral  “Chove no Molhado” que tive a honra de ser um dos principais protagonistas, ao lado da minha amiga Eliane Ferronato,  e no elenco,   D’artangnam, Serpa Sá, Ivo Felix, Marilidia Maciel, entre outros, e  na coxia Rosane Arnt.  O município era um manancial de águas caudalosas na diversificação da cultura, uma espécie de agente polinizador de ideias, veiculado principalmente pela juventude da época. Em tempo recorde e com a ajuda da comunidade, os estudantes do Colégio Estadual São Luis, construíram através do esforço e união de todos, o Clube Estudantão, que teve na inauguração um show com o saudoso ídolo da juventude, Jerry Adriani. O Clube foi palco de grandes festividades, bailes de debutantes e shows. “Uma página feliz da nossa história”  como diria Chico Buarque e a certeza de que o resultado respalda o trabalho e o sucesso é a constância do propósito !  Os Legais, uma grande saudade e uma lembrança inapagável na história do município e da nossa memória !!!   

O futebol em Clevelândia

A construção do Estádio Max Stahlschmidt

Nos idos de 1.930 aportou em Clevelândia o catarinense Valdemar Bornhausen contratado para fazer com sua equipe uma estrada de rodagem no sudoeste do Paraná. Naquela época o futebol era desconhecido de toda a juventude e não havia nenhum campo para a prática desse esporte. Não tardou para que o espírito esportivo e criativo de Valdemar, despertasse a ideia para a construção do primeiro campo de futebol. O lugar escolhido foi um terreno baldio da Rua Major Diogo Ribeiro, de propriedade do município. Juntamente com toda a sua equipe de serventes num final de semana em que estavam do folga, na companhia de outros voluntários “roçaram” o terreno e “capinaram” os matos, deixando tão somente a grama “verdinha”. Depois cortaram alguma árvores de tronco retilíneo para construir as traves e delimitaram o campo com serragem. Pronto ! Estava construído o primeiro campo de futebol , por coincidência, no mesmo local em que hoje está o Estádio Max Stahlschmidt. A prática do esporte começou a ser difundida entre a juventude clevelandense. Logo depois teve a fundação dos dois primeiros times de futebol desta terra: O Botafogo fundado por Zenon Arruda, de camisas vermelhas e calções brancos, e o Fluminense, de camisas azuis e calções brancos, fundado por Mozart Rocha Loures - Ambos falecidos e pioneiros desta terra -amigos por mais de 85 anos. Algum tempo depois veio morar em Clevelândia o Treinador “Juquinha Santos” que toda a manhã levava os jogadores de ambos os times, para fazer uma “marcha” até a Cascata do Rio do Brinco e depois exercícios físicos e alongamento. Ao retornar ao campo, ensinava a parte tática aos jogadores. Destacaram-se a época grandes jogadores, tais como Zenon Arruda, Mozart Rocha Loures, (meio de campo) Lilo Pontes (ponteiro) Nirval (exímio cobrador de escanteios) João Carlos Grevetti, Jucão, Ismael Carneiro (Goleiro) Paulo do Canto Pacheco, Sebastião Calomeno, Celso Filgueiras, Wilson Martins, Aureo Caju e Antonio Anibelli (grande craque) entre outros de saudosa memória. Quando havia algum jogo fora do município, eram convocados os jogadores de ambos os times para participarem da “Seleção. Segundo os fundadores, o futebol clevelandense sempre foi respeitado por todos pela sua qualidade técnica. Mais tarde em 1.949 foi fundado o Tabu Esporte Clube e o Estádio foi denominado Max Stahlschmidt em homenagem a um dos pioneiros desta terra.  

 
 

BARBEARIA "TRÊS IRMÃOS"

No ano de 1955 Dermeval Leite, conhecido carinhosamente por todos, como “Derma”, de umbigo enterrado nesta terra, ainda muito jovem, abriu as portas da primeira barbearia da cidade, situada numa casa de madeira que pertencia a José Azilieiro, no local onde se encontra atualmente o desativado Açougue Zarth, nas proximidades do Fórum. As primeiras lições aprendeu com seu tio que era barbeiro. Trabalhou algum tempo sozinho, trazendo depois, devido ao volume de serviço, os irmãos Nino e Cândido, surgindo então a “Barbearia Três Irmãos”. Por mais de cinquenta anos, os “três irmãos” prestaram serviços para gerações que ao longo do tempo foram se sucedendo. Na época a cidade de Clevelândia tinha como principal economia a extração de madeira e inúmeras serrarias foram instaladas, proporcionando aumento considerável na sua população. Por consequência, o movimento da barbearia era intenso, principalmente nos finais de semana. Dermeval trabalhou durante 58 anos como barbeiro, e nos falou com orgulho da profissão, creditando exclusivamente ao seu trabalho, o sustento da família e a educação dos filhos. Dentre muitos clientes ao longo do tempo, recorda que Crescêncio Martins, personalidade importante do município, fazendeiro e ex prefeito, era um dos seus clientes que sempre tinha uma estória engraçada para contar. Ainda havia o Frei Cássio, o Major Ramão, Mozart Rocha Loures, Zenon Arruda, e outros. Porém a narrativa que “Derma” nos relatou numa tarde agradável, sentados num banco da Praça Getúlio Vargas, relembra um fato de um saudoso personagem muito conhecido. Numa certa

Nilton Loures e os Três irmãos: Nino, Candido e Derme

ocasião em que Derma andava de bicicleta num domingo ao cair da tarde, pela praça que tinha a forma de um “X”, avistou delonge com sua inseparável bengala, a figura folclórica do Sr Lourencinho, (Lourenço Fernandes Inocêncio Jr- católico fervoroso -abnegado frequentador da Igreja Matriz-  além de cliente assíduo da Barbearia) ao se aproximar do simpático senhor de origem lusitana, tentou desviar a bicicleta, mas ele se assustou indo na frente dela e o atropelamento foi inevitável. Temeroso pelas consequências do “acidente” com o amigo e cliente, ao olhar pra trás, observou que o mesmo havia se levantado. Respirou  aliviado e seguiu com sua bicicleta para casa. Por óbvio, imaginou que o seu “cliente” teria o reconhecido e  jamais retornaria a Barbearia depois do infeliz ocorrido. Porém, na segunda feira ao abrir de manhã a porta do seu estabelecimento, teve uma surpresa ao avistar o Sr Lourenço com seu indefectível terno preto, bengala em punho, e com o rosto cheio de esparadrapos, saindo da igreja e atravessando a praça Getúlio Vargas, em direção a sua Barbearia. Sentiu um calafrio. Sabia que o “português” era bravo, e certamente ia lhe “meter os cachorros” pelo ocorrido na tarde anterior. Sem ter como se ausentar, se preparou para a intrigante conversa. Pouco depois se deparou com  ele entrando na barbearia e com certo temor interpelou:

Bom dia “Seo” Lourenço ! Tudo bem ?

Com cara de pouco amigos ele respondeu:

Mais ou menos, quase me mataram ontem, exclamou !

Mas o que aconteceu ? indagou o já preocupado barbeiro

Não há de ver que um “baita negrão, meteu a bicicleta encima de mim, de propósito. 
Quem é a pessoa ? Arriscou o “dissimulado” mestre da tesoura.
Eu sei mais ou menos quem é...ele mora lá na Vila Operária, ainda vou dar com a bengala nele.....

O barbeiro deu um suspiro profundo, afinal não havia sido reconhecido, pois não morava na Vila Operária. Assim, em nada alterou a relação de amizade e clientela entre ambos. Recordo com saudades do meu tempo de infância, quando frequentava a famosa Barbearia Três Irmãos. Não havia preferência pelo barbeiro, podia ser o “Derma” ou o Nino, ou o Cândido. A qualidade do trabalho era a mesma, tal qual o tipo de corte da moda: o “velho topete” e o restante da cabeça raspada. Ordens da minha saudosa mãe. O Sr Derma e o Nino  já se aposentaram, o Cândido não é mais barbeiro. O legado que fica é o exemplo da persistência, competência e honestidade no trabalho. Esse relato é minha homenagem aos grandes amigos, que permitiram inclusive a publicação da foto. (Por coincidência absoluta, na mesma disposição em que trabalhavam cada qual na sua cadeira da Barbearia. Da esquerda para a direita- Nino- ao centro, Cândido- e na direita- Derma-) Um brinde a vida, e a saudade, remexendo gavetas de um passado distante, que compartilho com os amigos da época.

MARIA DA CONCEIÇÃO DE LEON CHOCHO

Maria da Conceição de Leon Chocho, é uma simpática e bem humorada senhora de mais de noventa anos, gaúcha, com pouco mais de 1.48 m, e de descendência uruguaia. (De Leon) Amiga e vizinha dos meus avós, foi moradora durante muitos anos na histórica rua São Sebastião, e me recebeu em sua casa para um “dedo de prosa” há alguns anos atrás. Relembramos com saudade, o meu tempo de “moleque” quando subia numa árvore de cinamomo defronte a sua casa. O casal “Chocho” chegou em Clevelândia em 21/11/61, a cidade era um modesto vilarejo. Ela trabalhava como chefe do Departamento pessoal de uma grande empresa no Rio Grande do Sul , responsável pela folha de pagamento dos funcionários. Ele (já falecido) era montador de frigorífico, e ajudou na construção do frigorífico de Clevelândia. Depois trabalhou por

Maria da Conceição de Leon Chocho e Nilton Loures

muitos anos na antiga AGROESTE, onde se aposentou. D. Maria é dotada de uma memória privilegiada, inteligente e muito lúcida. Personagem tradicional nesta terra e querida por todos. Foi professora (a mais antiga) na Escola Castelo Branco, e fez parte da Legião de Maria, tendo sido secretária por mais de 30 anos. Participava , como secretária fazendo atas. Apesar da idade, não usava óculos, nem bengala, caminhava com firmeza. Tinha dificuldades de ouvir e usava aparelho auditivo. Brinca dizendo que é “meio “postiça” como dizem os uruguaios. (fazendo referencias ao aparelho auditivo e a prótese dentária que usa) Fazia o almoço diariamente, gostava de lidar na horta, adorava futebol, mas só assistia os jogos do Brasil. Acha que o futebol atualmente não tem mais os craques como havia no passado, fazendo referência ao Pelé, Garrincha, elogiando também Ronaldinho Gaúcho, Romário, e Ronaldo Fenômeno. Afirmou que o estudo e a pesquisa atualmente, é tudo feito por computador, bem diferente da sua época, afirmando que geografia a gente estudava por mapas, e aprendia para não mais esquecer. Os alunos eram avaliados por uma banca examinadora, composta pelo juiz e promotor da comarca, o prefeito e outras autoridades. Fiquei muito feliz e emocionado com a visita, agradeço pela gentil recepção. Receba esta singela homenagem pelos relevantes serviços prestados e que ainda presta a nossa cidade. Que Deus a proteja D. Maria !

 
 

O CASAMENTO DO MEU PAI 

( Narrado por ele próprio)

Naquela manhã fria do dia 18 de maio de 1.948, próximo às 6.00 hs, sonolento da noite anterior mal dormida, em consequência de uns “tragos” a mais,  ingeridos  na  companhia dos amigos Zenon, Nirval, e Lolô, no velho bar do “Dorival” nesta cidade,  fui sacudido pela minha mãe que me interrogou: “Acorda Mozart, hoje é o dia do seu casamento e você deve chegar lá na “Pensão da Luz” antes das 7.00 hs. – Dei um pulo na cama e pensei comigo, -a noiva até pode se atrasar, mas eu não posso !!!- Tomei o meu último banho de solteiro, vesti o terno cuidadosamente preparado, tomei um café com bolinho de fubá, e saí em direção a pensão, caminhando pelo gramado com cuidado, para não embarrar os sapatos. Estava previsto que a cerimonia, e o almoço iriam ocorrer no mesmo local, após, os convidados seriam recepcionados no Clube Cassino Clevelandense, para um baile. No mesmo horário, outro baile aconteceria no Clube Operário Guaíra, onde os noivos iriam posteriormente participar. Uma feliz ideia que os meus sogros (Atilio Lustosa Pacheco e D. Mariquinha) tiveram para proporcionar a todos os seus amigos, independente de classe social, a oportunidade de se confraternizarem com os noivos.  A cerimonia do casamento religioso foi  rápida, posteriormente teve a  realização do casamento civil feita pelo  Juiz de Paz Dorival de Andrade, (aquele mesmo dono do bar que eu havia tomado  umas “biritas”  em companhia dos amigos na noite anterior. A festa se desenvolvia animadamente,  após ter sido servido um suculento churrasco para os convidados. Mais tarde, chegou o caminhão dirigido pelo Sr Lidio Lanzarini, para nos levar até o Clube Cassino.  O cheiro que exalava do caminhão era quase insuportável, pois no dia anterior o proprietário tinha feito um carregamento de porcos até a sua fazenda. Desembarcamos defronte ao Clube e  agradecemos a gentileza. O baile foi animado, e nos divertimos com todos os convidados, até o momento em que a “orquestra” deu uma pausa para servir o bolo dos noivos. ( Recordo que foi feito pela D.Ester Ribas)  famosa pelo seu talento com doces, esposa de Francisco de Sá Ribas, grande amigo da família). Apesar de não ter muita intimidade para “cortar bolo” me antecipei para  fazer uma gentileza para minha noiva, cortando a primeira fatia para lhe oferecer, momento em que fui surpreendido pelo recheio de leite condensado que escorreu por entre suas mãos sujando o seu belo vestido de noiva. Meio sem jeito me desculpei e tratei logo de “oferecer a faca para que outros continuassem aquele ofício, para que não se repetisse a “trapalhada.” E assim prosseguiu a festa madrugada afora, quando então saímos de mansinho para ir  no  Clube Operário receber o cumprimento dos amigos. Nos divertimos até quase o amanhecer do dia.  As   retornar para  casa numa caminhonete de amigos que vieram de Palmas para o casamento, não foi possível chegar ao destino, pois em virtude da forte chuva que caía, a mesma  ficou  “encalhada” nas proximidades.  Sem chances de prosseguir, fomos “a pé” para casa, cansados, encharcados e com frio. Apesar do cansaço, nada foi motivo para ofuscar a nossa alegria e o sonho de iniciar uma vida a dois, constituindo uma família  com muito amor, carinho e respeito. E assim permanecemos por 67 anos juntos, numa feliz comunhão, quando então a minha querida companheira foi chamada para morar no céu.....Vou seguindo, com saudades, na espera de nosso reencontro.  O reencontro já aconteceu !! (Fato narrado por Mozart Rocha Loures, numa manhã, no momento em que fui tomar um café na sua companhia e por adaptado posteriormente. Saudades infinitas meu velho !!!.   

 

UMA VERDADEIRA PÉROLA

No ano de 1.969 num jantar na casa dos meus pais, estava reunida a nossa família, juntamente com meu avô paterno Aureliano da Rocha Loures, conhecido carinhosamente por “Lanico”. Ele gostava muito de música, e não foi a toa que escolheu o nome do meu pai de Mozart para homenagear um dos grandes gênios da música. (Como é sabido, o austríaco Wolfgang Amadeus Mozart  mostrou uma habilidade musical prodigiosa desde sua infância, e surpreendentemente começou a compor aos cinco anos de idade) Meu avô era gaúcho de Passo Fundo-RS e veio ainda jovem para esta terra, onde casou e constituiu sua família. Era tropeiro, foi açougueiro e na sua juventude gostava de serenatas, aprendeu a tocar violino e instrumento de sopro, integrando por um tempo a Banda Municipal de Clevelândia em “priscas eras” num passado longínquo. Lá pelas tantas, o meu irmão Nereu pegou um violão e começou a cantar valsas antigas.  Num dado momento, o velho “Lanico” já com o rosto rubro pelo vinho, começou a cantarolar uma música do seu tempo de juventude. O meu irmão teve a feliz ideia de rapidamente apertar as teclas do velho gravador “National” que estava sobre a mesa, e conseguimos uma verdadeira pérola: a gravação de uma valsa na voz do nosso avô Lanico, -que apesar da idade avançada demonstrou afinação surpreendente. Essa gravação tem mais de 60 anos. (Segue o arquivo original em anexo, da gravação com a qualidade rudimentar da época) A foto em anexo é do dia do seu casamento em 1918, nesta cidade. Convoco a Confraria dos Seresteiros de Clevelândia, da qual orgulhosamente faço parte, para a gente ensaiar e cantar essa obra prima.  Compartilho com os amigos !!!   

Unknown Track - Unknown Artist
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A Narrativa de um "Tropeiro de Porcos"

Noé Arruda é um dos descendentes desta família tradicional, que se estabeleceu na década de 1.920 em São Francisco de Sales, na zona rural deste município, quando recém havia sido deixado de ser denominada de Bela Vista de Palmas. Nascido em Clevelândia e com a sabedoria de quem se aproxima de um século de existência, com perfeita clareza de raciocínio e memória invulgar, este simpático “caboclo” de cor acobreada, nos recebeu em sua casa para falar do tempo em que levava tropa de porcos para União da Vitória, para serem carregados em vagões de trem, com destino a Sorocaba-SP. Como se sabe, a partir de 1.940 houve o declínio da exploração de erva mate na região, e a criação e engorda de porcos para comercialização da gordura animal, se tornou uma opção comercial atraente. (Não foi a toa que Francisco Matarazzo, um imigrante italiano, nos anos de 1.930 só faturava menos que o Governo Federal, O Departamento Nacional do Café e o Estado de São Paulo. O empresário foi um dos homens mais ricos da América do Sul e quando morreu tinha um patrimônio estipulado em 20 bilhões de dólares corrigidos nos padrões atuais- começou vendendo banha e produtos derivados da carne suína. Fonte Prima Página) Mas voltando ao nosso entrevistado, Noé ainda muito jovem e empolgado com a ideia,

decidiu apostar neste ramo de negócio. Os porcos eram criados na propriedade da família, soltos na mata entre lavouras de milho, não havia cercas divisórias entre as propriedades e cada proprietário sinalizava com um corte na orelha, específico para diferenciar seus animais, que se misturavam com os de seus vizinhos. O processo de engorda dos porcos acontecia após a plantação do milho, quando esse estivesse brotando, seria derrubado e devorado pelos porcos. Após a engorda, uma grande vara de porcos (400 a 500) era levada até União da Vitória para ser vendida. Não haviam caminhões naquele tempo, portanto eram organizadas tropeadas a pé, levando a “porcada”, por isso era importante que o porco não engordasse muito. À frente iam os “chamadores” levando milho que jogavam para os porcos irem comendo e seguindo o trajeto. O organizador da tropeada era o “capataz” responsável para arregimentar os “tropeiros” e levar a carroça com os mantimentos para todos. O experiente tropeiro nos relatou que a “viagem” para levar uma tropa de 500 porcos para União da Vitória levava cerca de um mês, e a “picada” era estreita, rompendo o “sertão” quase indevassável. Aquele pequeno espaço era democrático, e outros tropeiros também dele se serviam para a tropeada de mulas e bovinos com o mesmo destino. O trajeto era árduo, os tropeiros usavam chapéu, poncho e botas para se protegerem das intempéries, dos animais bravos e das matas por onde passavam. O cuidado era constante para não “extraviar” no sertão a tropa comercializada. Quando o cansaço tomava conta da tropa de porcos, os animais se prostravam para o descanso, acompanhado por toda a comitiva de tropeiros que dormiam ao redor. Tempos difíceis vividos por homens de coragem e determinação. A nossa reverência a este clevelandense, que nos ensinou sobre as tropeadas de porcos, numa época em que a economia do município tinha essa alternativa para o fortalecimento de sua economia.

 
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